A história de Dom Hélio

Dom Hélio nasceu na primeira metade do século XX, não se sabe exatamente quanto, mas todos diziam que foi num velho casarão no bairro operário do Catumbi.

Lapa, passou a infância frequentando uma escola pública ao lado da Vila Mimosa. Sabia tudo da vida e contava em gotas a sua sabedoria. Para cada idade do ouvinte uma história de vida. Diferentes histórias vividas nos bares, cafés, sinucas, cassinos e boates do Rio antigo.
Todas histórias engraçadas, educativas e com final feliz.
Dom Hélio cresceu em meio a malandragem da Lapa antiga, trabalhador, esperto, o malandro do bem. Aquele cara sagaz, bem quisto, atencioso, carinhoso com os velhinhos e cheio de cuidados com as crianças. Nunca quis se dar bem, sempre quis fazer-se do bem. Mulato alto e forte, gostava de futebol e de contar causos em torno de uma cerveja gelada entremeada por “um quentinho” para equilibar o som das palavras.

Dom Hélio tinha a postura de um Lorde elegante, sempre muito bem vestido. No inverno usava boina no estilo francês, poucos e ralos cabelos faziam-no frequentar uma barbearia tradicional costumeiramente. Ali ele ensinava o que é ser malandro-cariosa-trabalhador, ali ele ensinava as primeiras sacanagens para que todos se divertissem, ali ele ensinava aos barbeiros o que é ser elegante, ali ele ensinava aos clientes a gostarem da boa aparência e do trato educado e viril.

Dom Hélio partiu! Assim como como todos... mas deixou muita saudade, uma história e centenas de admiradores.

Dom Hélio talvez fosse o avô que todos sonharam em ter. Construtor de novos adultos que sabem saborear a vida.

Dom Hélio virou homenagem a todos os homens clássicos e de classe do Rio de Janeiro, nessa barbearia bem carioca, bem-humorada, rústica e com a orientação divina de Dom Hélio.

Minha Bicicleta Julieta

“Me lembro como se fosse hoje, alguns anos antes de estourar a segunda grande guerra meu pai comprou minha primeira bicileta, era uma Trimph Ingles, de segunda ou terceira mão. Quanta arte fiz com ela! Eu saia da Rua Dr. Agra – do lado do Cemitério do Catumbi e rodava da Lapa ao Maracanã, da Central a Santa Tereza, esse era meu domínio, eu tinha uns 12 anos e me via viajando pelo mundo”.

Dom Hélio passou a juventude trabalhando de bicicleta e a noite, num velho Ford 1941, rodava num carro de praça (hoje chamamos de taxi) contando histórios e conquistando pessoas pela noite do subúrbio carioca. Já no longínquo ano de 1953 conseguiu comprar a bicileta dos sonhos de todo carioca, uma Inglesa de porte, uma ingles nobre assim como ele: uma original Philips 1949, feita com a mais pura tradição das indústrias britânicas que dominaram o ciclo do aço em função da tecnologia desenvolvida para vencer a guerra.

Aquela beleza de “máquina” foi uma companheira fiel até que Dom Hélio fizesse setente e poucos anos. Cansada, com freios gastos foi gozar de merecido repouso, aposentada numa velha e empoeirada garagem no bairro do Estácio, na casa da sua irmã. Lá estava morando a “Julieta”, sem ninguém para admirar os seus encantos, suas retas firmes e suas curvas sinuosas.

O projeto da Barbearia Dom Hélio foi surgindo e as memórias do nosso herói nos foram brotando lentamente, afinal, foram décadas de “causos”. Localizamos a casa no bairro do Estácio e ele estava lá, a “Julieta com pneus costurados com linha preta” e pronta para voltar a vida e também homenagear Dom Hélio. Fixada para a eternidade no panteão de honra da Barbearia Dom Hélio, está a “Julieta”, bem tratada, bem cuidada, bem fixada com parasusos e... muita linha preta.